Especialistas avaliam cenário como incerto e alertam para importância da cautela nas decisões e ajustes nas operações. Entidades de diversos setores se manifestaram
Após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou o tarifaço na última sexta-feira (20/2), o presidente Donald Trump anunciou uma nova tarifa global de 10% — que depois mudou para 15%. A medida reacende a tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos e mantém o ambiente de incerteza para pequenas e médias empresas brasileiras que, desde abril de 2025, já operam sob custos mais elevados para exportar seus produtos para o país norte-americano.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços confirmam os impactos: em 2025, as exportações brasileiras registraram queda de 6,6%, totalizando US$ 37,716 bilhões, ante US$ 40,368 bilhões em 2024.
No sábado (21), o republicano afirmou que a taxa aumentaria de 10% para 15%, com base nos termos da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. O dispositivo autoriza a aplicação de tarifas por até 150 dias antes de apreciação pelo Congresso. Com isso, as novas taxas entram em vigor às 00h01 (horário de Washington) desta terça-feira (24/2), atingindo todos os países que possuem relação comercial com os Estados Unidos.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, considerou a decisão da Suprema Corte dos EUA “importante para aumentar a parceria comercial”. Em entrevista coletiva realizada na última sexta-feira, ele destacou que a expectativa é que o diálogo entre os dois países aumente com as negociações.
“Os Estados Unidos são o terceiro comprador do nosso país, e é o primeiro maior comprador de manufaturados, de produtos de valor agregado mais alto. Então, com isso a gente pode aumentar bastante a parceria comercial com os Estados Unidos, aumentar as trocas comerciais e a complementariedade econômica”, disse.
Especialistas ouvidos por PEGN explicam como a nova alíquota deve funcionar na prática, quais setores tendem a ser mais afetados e de que forma as PMEs brasileiras podem sentir os impactos no caixa e na competitividade.
Contexto
A decisão da Suprema Corte anulou todas as taxas implementadas por Trump dentro da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), incluindo as tarifas recíprocas de 10% em vigor desde abril de 2025 e a sobretaxa de 40% sobre alguns produtos brasileiros anunciadas em julho do mesmo ano.
A partir disso, Marco Antonio Rocha, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor-executivo do Transforma Economia, pontua que será aplicada uma taxa global de 15%. Contudo, Rocha destaca que a nova medida não anula a alíquota de 50% em itens como aço e alumínio, sendo somada aos 15%.
“Essa decisão afeta as tarifas que foram impostas dentro daquele pacote de abril de 2025. Não outras que estão previstas em outras leis referentes à segurança nacional, a práticas comerciais discriminatórias. Essas, por exemplo, que afetam a exportação de aço brasileira e de alumínio, continuam em vigor, não estão dentro desse pacote que foi avaliado, analisado pela Suprema Corte dos Estados Unidos”, reforça.
Diante desse cenário, o economista avalia que a medida não impõe mudanças significativas para o Brasil. Segundo ele, a manutenção de tarifas sobre esses setores segue pressionando as exportações. “Mudou muito pouca coisa. Os setores que causavam maiores preocupações, como aço e alumínio, continuam sofrendo com a política comercial do governo Trump”, afirma.
Rocha acrescenta que o momento deve ser encarado com cautela, o que contribui para a continuidade do diálogo entre os dois países. “As negociações que o governo brasileiro vem fazendo com os Estados Unidos devem seguir porque justamente esses setores que são mais importantes no comércio bilateral Brasil e Estados Unidos foram muito pouco afetados por essa decisão da Suprema Corte”, reitera.
Ele alerta ainda para o cenário de incerteza para as PMEs, já que a nova taxa de 15% tem caráter temporário de 150 dias. “As novas tarifas terão um tempo determinado, mas não sabemos como o governo Trump vai reagir. No momento, o que paira é a ampliação da incerteza de não saber o que vai acontecer em termos de preços relativos e como isso afetará os custos dessas empresas. Os investimentos e as decisões tendem a ser postergadas”, aponta.
Jorge Ferreira dos Santos, professor de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), corrobora o cenário de insegurança e destaca que as PMEs devem manter ajustes para mitigar as decisões tarifárias dos Estados Unidos.
“As empresas devem fazer ajustes logísticos, já tiveram que fazer isso desde o início do tarifaço e vão ter que fazer de novo. Os preços globais subiram muito por conta dessa reconfiguração do comércio internacional, preço de frete, preço de seguro”, afirma.
– Abril de 2025: O presidente Donald Trump anunciou as tarifas recíprocas, adicionando uma taxa de 10% sobre os itens brasileiros.
– Junho: O republicano aumentou as taxas sobre o aço e alumínio para 50%, amparado pelos termos da Seção 232.
– Julho: Trump impôs um novo aumento de 40%, subindo a alíquota total de diversos itens para 50%. Entretanto, a medida veio acompanhada com diversas exceções.
– Novembro: Após iniciar negociações diretas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o país norte-americano retirou a tarifa de 40% de novos produtos, entre eles café, carnes e frutas.
– 20 de fevereiro de 2026: A Suprema Corte derrubou a taxa recíproca de 10% e sobretaxa de 40% sobre os itens brasileiros. Em resposta, o republicano anunciou a nova tarifa global de 150 dias.
– 21 de fevereiro: Trump fez um novo anúncio sobre o aumento da tarifa global para 15%.
O que dizem as entidades sobre novo tarifaço
Entidades brasileiras se posicionaram após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. Em nota, A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) afirmou que acompanha o cenário com cautela e defendeu a importância do diálogo. “Desde o início do debate sobre o chamado ‘tarifaço’, a Abit tem defendido o diálogo, a previsibilidade e regras claras no comércio internacional, elementos essenciais para a segurança jurídica e para o planejamento das empresas.”
Pavel Cardoso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), afirma que a medida é positiva para a exportação do café solúvel, considerando que a tarifa foi reduzida de 50% para 15%. “Foi uma boa notícia para o café solúvel. Para os cafés verde, torrado e moído, descafeinado, cujos códigos figuram na lista do anexo 2 do regime de exceção, a alíquota permanece zero”, pondera.
A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) corrobora que o “respeito às regras institucionais e o fortalecimento do diálogo são essenciais para a estabilidade das relações comerciais”. A instituição ainda acrescentou que a decisão representa um indício positivo para o Brasil. “Trata-se de um passo importante para restaurar maior segurança jurídica nas relações comerciais bilaterais”.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também afirmou que “manterá vigilância rigorosa sobre os desdobramentos das decisões”. “[…] Reiterando a diplomacia empresarial como o caminho mais eficaz para superar entraves e fortalecer a relação comercial com os Estados Unidos.”
Fonte: Portal Pequenas Empresas & Grandes Negócios / Por Rafaela Souza